segunda-feira, 9 de maio de 2011

Memorial do Convento - Caps 8 a 25

Capítulo XIII
Verificação de Baltasar relativamente ao estado enferrujado da máquina, seguida dos arranjos necessários e da construção de uma forja enquanto o padre não chega. 
Chegada do padre, dizendo a Blimunda que serão necessárias, pelo menos, duas mil vontades para a passarola voar (tendo ela apenas recolhido cerca de trinta). 
Conselho do Padre para que Blimunda recolha vontades na procissão do Corpo de Deus
Regresso do Padre a Coimbra para concluir os seus estudos. 

 Trabalho de Baltasar e Blimunda na máquina, durante o Inverno e a Primavera, e chegada, por vezes, do padre com esferas de âmbar amarelo (que guardava numa arca).
 Perspectivas de a procissão do Corpo de Deus ser diferente do normal. 
Perda da capacidade visionária de Blimunda, com a chegada da lua nova. 
Saída da procissão (8 de Junho de 1719) - só no dia seguinte, com a mudança da lua, Blimunda recupera o seu poder. 


Capítulo XIV 
Regresso doPadre Bartolomeu Lourenço deCoimbra, doutor em cânones.
 Novo estatuto do padre: fidalgo capelão do rei, vivendo nas varandas do Terreiro do Paço. 
Relação do padre com o rei: este apoia a aventura da passarola, exprimindo o desejo de voar nela.
 Lição de música (cravo) da infanta D. Maria Bárbara (8 anos), sendo o seu professor o maestro Domenico Scarlatti. 
Conversa do padre com Scarlatti, depois da lição. 
Audição, em toda a Lisboa, de Scarlatti a tocar cravo, em privado. 
Scarlatti em S. Sebastião daPedreira, a convite de Bartolomeu Lourenço (após dez anos de Baltasar e Blimunda terem entrado na quinta). 
Apresentação a Scarlatti do casal e da máquina de voar. 
 Convite a Scarlatti para visitar a quinta sempre que quiser.
 Ensaio do sermão de Bartolomeu Lourenço para oCorpo de Deus (tema: Et ego in illo)







Capítulo XV 
Censura do sermão de Bartolomeu Lourenço por um consultor do Santo Ofício. 
 S. Sebastião daPedreira recebe o cravo de Scarlatti.
 Vontade de Scarlatti voar na passarola e tocar no céu. 
 Ida de Baltasar e Blimunda a Lisboa (dominada pela peste), à procura de vontades. 
Doença estranha de Blimunda, após a recolha de duas mil vontades. 
Apoio de Baltasar e recuperação de Blimunda após audição da música de Scarlatti.
 Encontro do casal com o padre Bartolomeu Lourenço. 
 Remorsos de Bartolomeu Lourenço por ter colocado Blimunda em perigo de vida. 
Vontade de Bartolomeu Lourenço informar o rei de que a máquina está pronta, não sem a experimentar primeiro.





Capítulo XVI 
Reflexão sobre o valor da justiça. 
Morte de D. Miguel, irmão do rei, devido a naufrágio. 
 Necessidade de o Rei devolver a quinta de S. Sebastião da Pedreira ao Duque de Aveiro, após anos de discussão na Justiça. 
Vontade doPadre experimentar a máquina para, depois, a apresentar ao rei. 
Receio doPadre face ao SantoOfício: o voo entendido como arte demoníaca. y Fuga doPadre, procurado pelaInquisição, na passarola.
 Destruição da abegoaria para a passarola poder voar.
 Voo da máquina com oPadre, Baltasar e Blimunda e descrição de Lisboa vista do céu.
 Abandono do cravo num poço da quinta para Scarlatti não ser perseguido pelo SantoOfício. 
Perseguição de Bartolomeu Lourenço pela Inquisição

Divisão de tarefas na passarola e preocupação doPadre: se faltar o vento a passarola começa a cair e o mesmo acontecerá quando o sol se puser. 
Visão de Mafra a partir do céu: a obra do convento, o mar.
 Cepticismo dos habitantes que vêem a passarola nos céus. 
 Descida e pouso da passarola numa espécie de serra, com a chegada da noite. 
 Tentativa de destruição da passarola, por Bartolomeu Lourenço (fogo), mas Baltasar e Blimunda impedem-no. 
 Fuga do padre e camuflagem da máquina com ramos das moitas, na serra do Barregudo. 
 Chegada de Baltasar e Blimunda, dois dias depois, a Mafra, fingindo que vêm de Lisboa. 
Procissão em Mafra em honra do Espírito Santo, que sobrevoou as obras da basílica (na perspectiva dos habitantes)







Capítulo XVII 
Trabalho procurado por Baltasar e Álvaro Diogo com a hipótese de ele trabalhar nas obras do convento. 
 Baltasar naIlha da Madeira, local de alojamento para os trabalhadores do convento. 
 Descrição da vida nas barracas de madeira (mais de 200 homens que não são de Mafra). 
 Verificação do atraso das obras (feita por Baltasar) - motivos: chuva e transporte dos materiais dificultam o avanço. 
 Notícias de um terramoto em Lisboa. 
 Regresso de Baltasar ao Monte Junto, onde se encontra a passarola. 
Visita de Scarlatti ao convento e encontro com Blimunda, sendo esta informada de que Bartolomeu de Gusmão morreu em Toledo, no dia do terramoto





Capítulo XVIII 
Enumeração dos bens doImpério de D. João V. 
 Enumeração dos bens comprados para a construção do convento. 
Realização de uma missa numa capela situada entre o local do futuro convento e aIlha da Madeira. 
Apresentação dos trabalhadores do convento e apresentação de Baltasar Mateus (já com 40 anos)


Capítulo XIX
 Os trabalhos de transporte de pedra-mãe (Benedictione). 
 Mudança de serviço no trabalho de Baltasar: dos carros de mão à junta de bois. 
 Notícia da necessidade de ir a Pêro Pinheiro buscar uma pedra enorme (Benedictione). 
 Trabalho dos homens em época de calor e descrição da pedra. 
 Ferimento de um homem (perda do pé) no transporte da pedra (³Nau da Índia´). 
Narrativa de Manuel Milho (história de uma rainha e de um ermitão). 
 Segundo dia do transporte da pedra e retoma da narrativa de Manuel Milho. 
Chegada a Cheleiros e morte de Francisco Marques (atropelado pelo carro que transporta a pedra) bem como de dois bois. 
 Velório do corpo do trabalhador. 
 Manuel Milho retoma a narrativa. 
Missa e sermão de domingo. 
 Final da história narrada por Manuel Milho. 
 Chegada da pedra ao local da Basílica, após oito dias de percurso..





Capítulo XX 
Regresso de Baltasar, naPrimavera, ao Monte Junto, depois de seis ou sete tentativas. 
Companhia de Blimunda, passados três anos da descida da passarola, nesse regresso. 
 Confidência de Baltasar ao pai: o destino da sua viagem e o voo na passarola. 
Renovação da passarola graças à limpeza feita por Baltasar e Blimunda. 
Descida do casal a Mafra, localidade infestada por doenças venéreas.
 Morte do pai de Baltasar





Capítulo XXI
 Auxílio desmotivado daInfanta D. Maria e doInfante D. José na construção da Basílica de S.Pedro (brinquedo de D. João V). 
Encomenda de D. João V ao arquitecto Ludovice para construir uma basílica como a de S.Pedro na corte portuguesa. 
Desencorajamento de Ludovice, convencendo o rei a construir um convento maior em Mafra. 
Conversa de D. João V com o guarda-livros sobre as finanças portuguesas e preparativos para o aumento da construção do convento em Mafra. 
 Intimação de um maior número de trabalhadores para cumprimento da vontade real. 
 Orei e o medo da morte (que o possa impedir de ver a obra final). 
Vontade de D. João V em sagrar a basílica no dia do seu aniversário, daí a dois anos (22/10/1730). 
 Chegada de um maior número de trabalhadores a Mafra (500)





Capítulo XXII 
Casamento da Infanta Maria Bárbara com o príncipe D. Fernando de Castela e casamento do príncipe D. José com Mariana Vitória. 
Participação de João Elvas no cortejo real para encontro dos príncipes casadoiros. 
 Partida do rei para Vendas Novas. 
 Percurso do rei na direcção de Montemor. 
Trabalho de João Elvas no arranjo das ruas, após chuva torrencial, para que o carro da rainha e da princesa possa prosseguir para Montemor. 
 Esforço dos homens para tirar o carro da rainha de um atoleiro. y João Elvas recorda o companheiro Baltasar Mateus junto de Julião Mau-Tempo. 
 Conversa destes e a suspeita de que Baltasar voou com Bartolomeu de Gusmão. 
Tempo chuvoso no percurso de Montemor a Évora. 
 Lembrança da princesa de que desconhece o convento que se está a erguer em favor do seu nascimento, depois de ver homens presos a serem enviados para trabalhar em Mafra. 
 Encontro do rei com a rainha e os infantes em Évora. 
 Cortejo real dirigido para Elvas, oito dias após a partida de Lisboa para troca das princesas peninsulares. y Reis de Espanha em Badajoz. 
 Chegada do rei, da rainha e dos infantes ao Caia, a 19 de Janeiro. 
Cerimónia da troca das princesas peninsulares.





Capítulo XXIII
 Cortejo de estátuas de santos em Fanhões. 
Deslocação de noviços para Mafra nas vésperas de sagração do convento. 
Chegada dos noviços. 
 Regresso de Baltasar a casa depois do trabalho

Ida de Baltasar e Blimunda ao local onde se encontram as estátuas. 
Apreensão de Blimunda ao saber que passados seis meses Baltasar vai ver a passarola. 
 Ocasal no círculo das estátuas e reflexão sobre a vida e a morte. 
 Despedida amorosa de Baltasar e Blimunda na barraca do quintal. 
 Chegada de Baltasar à Serra do Barregudo. 
Entrada de Baltasar na passarola, seguida da queda deste e do voo da máquina.





Capítulo XXIV
 Espera de Blimunda e posterior busca de Baltasar.
 Entrada do rei em Mafra. 
 Grito de Blimunda ao chegar ao Monte Junto, depois de descobrir que a passarola não se encontrava no local habitual. 
 Encontro de Blimunda com um frade dominicano que a convida a recolher -se numa ruínas junto ao convento. 
Tentativa de violação de Blimunda pelo frade e morte deste com o espigão que ela lhe enterra entre as costelas. 
 Blimunda faz o caminho de regresso a casa. 
 A ansiedade de Blimunda depois de duas noites sem dormir. 
 Final das festividades do dia, em Mafra. 
 Informação de Álvaro Diogo sobre quem está para chegar a Mafra. 
Dia do aniversário do rei e da sagração da basílica. 
Cortejo assistido por Inês Antónia e Álvaro Diogo, acompanhados por Blimunda. 
 Bênção do patriarca naBenedictione. 
 Final do primeiro dos oito dias de sagração e saída de Blimunda para procurar Baltasar





Capítulo XXV 
 Procura de Baltasar por Blimunda ao longo de nove anos. 
 Apelido de Blimunda: a voadora. 
Identificação de Blimunda com a terra onde ela permaneceu por largo tempo a ajudar os que dela se socorriam:Olhos de Água. 
 Passagem de Blimunda por Mafra e tomada de conhecimento da morte de Álvaro Diogo. 
Sétima passagem desta por Lisboa. 
Encontro de Blimunda(em jejum)com Baltasar, que está aserqueimado num auto-de-fé, junto com António José da Silva (O Judeu), em 1739. 
 Recolha da vontade de Baltasar por Blimunda.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

fhl - ver link

http://www.prof2000.pt/users/jsafonso/Port/luar.htm

fhl

1. Razões do descontentamento sentido em 1817: domínio inglês, poder despótico exercido pelos governadores do reino, miséria atroz, péssimas condições de vida para o povo.

2. Manuel, homem do povo, mendigo, miserável, que nada tem e nada pode, manifesta a sua total impotência, o seu total desalento perante o estado de coisas.


3. Primeira alusão a Gomes Freire de Andrade: sua ligação à liberdade; amizade para com o povo; o único que poderia dar a volta à situação profundamente disfórica por que passam.

4. Vicente procura denegrir a imagem de Gomes Freire de Andrade junto do povo, alertando-o para os efeitos nefastos da guerra, para o facto de aos generais só interessarem os pobres quando precisam deles para o combate e para o facto de o general ser estrangeirado, apelando para o trauma da invasão do país pelos franceses e ingleses.

5. Vicente prova que é um homem sem escrúpulos, sem quaisquer princípios morais, sem ideais, estando disposto a tudo para subir na vida, só se importando com as questões materiais.

6. Vicente mistura-se com os populares, fingindo estar com eles, partilhar as suas angústias, para os conseguir influenciar.

7. Aquando do encontro com os governadores, Vicente não diz o que pensa, mas o que julga que pode agradar, o que o possa favorecer mais, pondo, mais uma vez, em evidência a sua mesquinhez.


8. O Principal Sousa evidencia a sua obsessão pelo catolicismo.


9. O Principal Sousa e D. Miguel manifestam o desejo de manter Portugal no obscurantismo, na ignorância, longe das revoluções europeias, preocupando-se em manter os portugueses crentes fervorosos, sem nada questionarem, vivendo resignados na total ignorância.

10. A propósito do denunciante Andrade Corvo, Beresford critica mordazmente os portugueses, mostrando o seu desprezo por Portugal.


11. Em diálogo com Morais Sarmento, outro denunciante, Corvo, mostra que, tal como Vicente, só está interessado em subir na vida e contra-argumenta perante os receios do primeiro.

12. Beresford volta a mostrar a sua falta de consideração pelos portugueses, ficando bem claro que só colabora com a regência para atingir os objectivos pessoais.

13. Prova da injustiça reinante na “justiça”: não importa se se condena um inocente, desde que o “culpado” satisfaça os propósitos dos governadores.
I, pp. 61, 67, 70, 71

14. Na sua condição de homem do Clero, o Principal Sousa tenta limpar a sua imagem, sabendo que se deveria manter afastado da política e finge-se indignado perante a possibilidade de se condenar um inocente.
I, pp. 60-62

15. Beresford está consciente do facto de ser mal-amado em Portugal.

16. O perfil do “culpado ideal” está traçado, só falta encontrar um nome que nele se encaixe.

17. Prevêem-se julgamentos secretos, ultra-rápidos e logo seguidos da execução das sentenças, não dando oportunidade de defesa aos réus, condenados à partida.

18. O Principal Sousa e D. Miguel temem a revolução e a consequente perda de privilégios.

19. D. Miguel sonha com um país que mantenha viva a tripartição da sociedade em Nobreza, Clero e Povo e não concebe a vida sem uma distinção clara entre as classes sociais.

20. Faz-se a revelação do nome do responsável da conspiração, da conjectura da tão temida revolução – Gomes Freire de Andrade – e D. Miguel verifica que o general corresponde perfeitamente ao perfil do «chefe da revolta».

21. O ambiente de terror que os governadores fazem instalar em todo o país, através dos sinos tocando a rebate, dos tambores..., destina-se a convencer as pessoas de que se vive num estado de calamidade, para que os espíritos estivessem receptivos à urgência de os governadores reporem a ordem.

22. Manuel, profundamente irónico, assume o papel do mendigo e do nobre.

23. Jogo simbólico da luz/fogo relacionado com Gomes Freire de Andrade e a função que a sua morte assumirá no futuro do país.
II, pp. 80 e 140

24. Matilde revolta-se contra a injustiça reinante num mundo que premeia os cobardes, os hipócritas e os acomodados.

25. Matilde evoca toda a felicidade perdida e critica a mesquinhez e a inveja dominantes em Portugal.

Felizmente há luar , resumo + completo.

Trata-se de uma drama narrativo de carácter épico que retrata a trágica apoteose do movimento liberal oitocentista, em Portugal. Apresenta as condições da sociedade portuguesa do séc. XIX e a revolta dos mais esclarecidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas. Segue a linha de Brecht e mostra o mundo e o homem em constante transformação; mostra a preocupação com o homem e o seu destino, a luta contra a miséria e a alienação e a denúncia da ausência de moral; alerta para a necessidade de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem.
De acordo com Brecht, Sttau Monteiro proporciona uma análise crítica da sociedade, mostrando a realidade, do modo a levar os espectadores a reagir criticamente e a tomar uma posição.
- personagens psicologicamente densas e vivas
- comentários irónicos e mordazes
- denúncia da hipocrisia da sociedade
- desfesa intransigente da justiça social
- teatro épico: oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar uma posição
- intemporalidade da peça remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição
- preocupação com o homem e o seu destino
- luta contra a miséria e a alienação
- denúncia a ausência de moral
- alerta para a necessidade de uma superação com o surgimento de uma sociedade solidária que permitia a verdadeira realização do homem.
As personagens são psicologicamente densas, os comentários irónicos e mordazes e denuncia-se a hipocrisia da sociedade, a luta contra a miséria e a alienação, a preocupação com o Homem e o seu destino. Drama narrativo, de carácter social, na linha de Brecht (exprime a revolta contra o poder, o homem tem o direito e o dever de transformar a sociedade em que vive, com o objectivo de levar o espectador a reagir criticamente).
BRECHT ("Estudos Sobre o Teatro"): propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador e a história narrada, para que se possam fazer juízos de valor. 
Em "FELIZMENTE HÁ LUAR!", as personagens, o espaço e o tempo são trabalhados para que a "distanciação se concretize".
Luta contra a tirania, opressão, traição, injustiça e todas as formas de perseguição.
O dramaturgo através dos gestos, cenários, palavras e didascálias, leva o público a entender de forma clara a mensagem.
LINGUAGEM: natural, viva e maleável; frases em latim com conotação irónica, frases incompletas por hesitação ou interrupção, marcas características do discurso oral e recurso frequente à ironia e sarcasmo.
Como drama narrativo, pressupõe uma acção apresentada ao espectador e com possibilidade de ser vivida por ele, mas, sobretudo, procura a sua conivência (cumplicidade) ou participação testemunhal.
O carácter narrativo é sinonimo de épico, ao contar determinados acontecimentos que devem ser interpretados, reflectidos e julgados pelo espectador, enquanto elemento da sociedade. Observando Felizmente há Luar, verificamos que são estes os objectivos de Luís de Sttau Monteiro, que evoca situações e personagens do passado, usando-as como pretexto para falar do presente.
o teatro moderno, do qual faz parte esta obra, tem como preocupação fundamental levar os espectadores a pensar, a reflectir sobre acontecimentos passados e a tomar posições na sociedade em que se inserem, para tal é usada uma técnica realista/influencia de Brecht – DISTANCIAÇÃO HISTÓRICA – isto é:
- o actor deve conseguir "afastar-se"da personagem
- o espectador deve conseguir "afastar-se" da historia narrada
Esta técnica acaba por aproximar o actor e o espectador, de tal modo que ambos se distanciam da historia narrada, podendo assim como pessoas reais fazerem os respectivos juízos ou criticas de forma precisa e consciente sobre o que se passa em palco.
Assim, Luís de Sttau Monteiro, através desta técnica, pretende levar o espectador a ter um olhar crítico para que se aperceber e criticar as injustiças e opressões.
a) tempo histórico: século XIX
b) tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o regime salazarista
c) tempo da representação: 1h30m/2h
d) tempo da acção dramática: a acção está concentrada em 2 dias
e) tempo da narração: informações respeitantes a eventos não dramatizados, ocorridos no passado, mas importantes para o desenrolar da acção
espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais, exteriores e interiores, mas não há nas indicações cénicas referência a cenários diferentes
espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens, havendo vários espaços sociais, distinguindo-se uns dos outros pelo vestuário e pela linguagem das várias personagens
O título da peça aparece duas vezes ao longo da peça, ora inserido nas falas de um dos elementos do poder – D. Miguel – ora inserido na fala final de Matilde. Em primeiro lugar é curioso e simbólico o facto de o título coincidir com as palavras finais da obra, o que desde logo lhe confere circularidade. 
1) página 131 – D. Miguel: salientando o efeito dissuasor das execuções, querendo que o castigo de Gomes Freire se torne num exemplo
2) página 140 – Matilde: na altura da execução são proferidas palavras de coragem e estímulo, para que o povo se revolte contra a tirania
Num primeiro momento, o título representa as trevas e o obscurantismo; num segundo momento, representa a caminhada da sociedade em busca da liberdade.
Como facilmente se constata a mesma frase é proferida por personagens pertencentes a mundos completamente opostos: D. Miguel, símbolo do poder, e Matilde, símbolo da resistência e do antipoder. Porém o sentido veiculado pelas mesmas palavras altera-se em virtude de uma afirmação dar lugar a uma eufórica exclamação
Para D. Miguel, o luar permitiria que as pessoas vissem mais facilmente o clarão da fogueira, isso faria com que elas ficassem atemorizadas e percebessem que aquele é o fim ultimo de quem afronta o regime. A fogueira teria um efeito dissuasor.
Para Matilde, estas palavras são fruto de um sofrimento interiorizado reflectido, são a esperança e o não conformismo nascidos após a revolta, a luz que vence as trevas, a vida que triunfa da morte. A luz do luar (liberdade) vencerá a escuridão da noite (opressão) e todos poderão contemplar, enfim, a injustiça que está a ser praticada e tirar dela ilações.
Há que imperiosamente lutar no presente pelo futuro e dizer não à opressão e falta de liberdade, há que seguir a luz redentora e trilhar um caminho novo.

 topo
CONTEXTO HISTÓRICO: Revolução Francesa de 1789 e invasões napoleónicas levam Portugal à indecisão entre os aliados e os franceses. Para evitar a rendição, D. João V foge para o Brasil. Depois da 1ª invasão, a corte pede a Inglaterra, um oficial para reorganizar o exército: GENERAL BERESFORD
Luís de Sttau Monteiro denuncia a opressão vivida na época em que escreve esta obra, isto é, em 1965, durante a ditadura de Salazar. Assim, o recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX, permitiu-lhe, também, colocar em destaque as injustiças do seu tempo.
A peça "Felizmente há luar" é uma peça épica, inspirada na teoria marxista, que apela à reflexão, não só no quadro da representação, como também na sociedade em que se insere. O teatro de Brecht pretende representar o mundo e o homem em constante evolução de acordo com as relações sociais. Estas características afastam-se da concepção do teatro aristotélico que pretendia despertar emoções, levando o espectador a identificar-se com o herói. O teatro moderno tem como preocupação fundamental levar os espectadores a pensar, a reflectir sobre os acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se insere. Surge assim a técnica do distanciamento que propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador e a história narrada, para que, de uma forma mais real e autêntica possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado. Luís Sttau Monteiro pretende, através da distanciação, envolver o espectador no julgamento da sociedade, tomando contacto com o sofrimento dos outros. Deste modo o espectador deve possuir um olhar crítico para melhor se aperceber de todas as formas de injustiça e opressões.
 topo
PERSONAGENS:
GOMES FREIRE: protagonista, embora nunca apareça é evocado através da esperança do povo, das perseguições dos governadores e da revolta da sua mulher e amigos. É acusado de ser o grão-mestre da maçonaria, estrangeirado, soldado brilhante, idolatrado pelo povo. Acredita na justiça e luta pela liberdade. É apresentado como o defensor do povo oprimido; o herói (no entanto, ele acaba como o anti-herói, o herói falhado); símbolo de esperança de liberdade
D. MIGUEL FORJAZ: primo de Gomes Freire, assustado com as transformações que não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio e calculista. prepotente; autoritário; servil (porque se rebaixa aos outros); 
PRINCIPAL SOUSA: defende o obscurantismo, é deformado pelo fanatismo religioso; desonesto, corrompido pelo poder eclesiástico, odeia os franceses
BERESFORD: cinismo em relação aos portugueses, a Portugal e à sua situação; oportunista; autoritário; mas é bom militar; preocupa-se somente com a sua carreira e com dinheiro; ainda consegue ser minimamente franco e honesto, pois tem a coragem de dizer o que realmente quer, ao contrário dos dois governadores portugueses. É poderoso, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico
VICENTE: sarcástico, demagogo, falso humanista, movido pelo interesse da recompensa material, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado; traidor; desleal; acaba por ser um delator que age dessa maneira porque está revoltado com a sua condição social (só desse modo pode ascender socialmente).
MANUEL: denuncia a opressão a que o povo está sujeito. É o mais consciente dos populares; é corajoso. 
MATILDE DE MELO: corajosa, exprime romanticamente o seu amor, reage violentamente perante o ódio e as injustiças, sincera, ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre. Representa uma denúncia da hipocrisia do mundo e dos interesses que se instalam em volta do poder (faceta/discurso social); por outro lado, apresenta-se como mulher dedicada de Gomes Freire, que, numa situação crítica como esta, tem discursos tanto marcados pelo amor, como pelo ódio.
SOUSA FALCÃO: inseparável amigo, sofre junto de Matilde, assume as mesmas ideias que Gomes Freire, mas não teve a coragem do general. Representa a amizade e a fidelidade; é o único amigo de Gomes Freire de Andrade que aparece na peça; ele representa os poucos amigos que são capazes de lutar por uma causa e por um amigo nos momentos difíceis.
Frei Diogo: homem sério; representante do clero; honesto – é o contraposto do Principal Sousa. 
Delatores: mesquinhos; oportunistas; hipócritas.
MIGUEL FORJAZ, BERESFORD e PRINCIPAL SOUSA  perseguem, prendem e mandam executar o General e restantes conspiradores na fogueira. Para eles, a execução à noite, constituía uma forma de avisar e dissuadir os outros revoltosos, mas para MATILDE era uma luz a seguir na luta pela liberdade.
 topoLinguagem
- natural, viva e maleável, utilizada como marca caracterizadora e individualizadora de algumas das personagens
- uso de frases em latim com conotação irónica, por aparecerem no momento da condenação e da execução
- frases incompletas por hesitação ou interrupção
- marcas características do discurso oral
- recurso frequente à ironia e sarcasmo

Recursos estilísticos: enorme variedade (tomar especial atenção à ironia)
Funções da linguagem: apelativa (frase imperativa); informativa (frase declarativa); emotiva [frase exclamativa, reticências, anacoluto (frases interrompidas)]; metalinguística
Marcas da linguagem e estilo: provérbios, expressões populares, frases sentenciosas
TEXTO PRINCIPAL: As falas das personagens
TEXTO SECUNDÁRIO: as didascálias/indicações cénicas (têm um papel crucial na peça)
Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60: denúncia da violência
Felizmente Há Luar! tem como cenário o ambiente político dos inícios do século XIX: em 1817, uma conspiração, encabeçada por Gomes Freire de Andrade, que pretendia o regresso do Brasil do rei D. João VI e que se manifestava contrária à presença inglesa, foi descoberta e reprimida com muita severidade: os conspiradores, acusados de traição à pátria, foram queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir.
Luís de Sttau Monteiro marca uma posição, pelo conteúdo fortemente ideológico, e denuncia a opressão vivida na época em que escreve a obra, em 1961, precisamente sob a ditadura de Salazar.
O recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no século XIX em que decorre a acção permitiu-lhe, assim, colocar também em destaque as injustiças do seu tempo e a necessidade de lutar pela liberdade.
Em Felizmente Há Luar! percebe-se, facilmente, que a História serve de pretexto para uma reflexão sobre os anos 60, do século XX. Sttau Monteiro, também ele perseguido pela PIDE, denuncia assim a situação portuguesa, durante o regime de Salazar, interpretando as condições históricas que mais tarde contribuíram para a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974. Tal como a conspiração de 1817, em vez de desaparecer com medo dos opressores permitiu o triunfo do liberalismo, também a oposição ao regime vigente nos anos 60, em vez de ceder perante a ameaça e a mordaça, resistiu e levou à implantação da democracia.

Felizmente há luar 2

O TEATRO ÉPICO:
Debruça-se sobre o Homem, no seu constante devir - é uma luta permanente para transformar a sociedade.
Para isso, usa a técnica da Distanciação Histórica e o realismo.
É preciso procurar um facto histórico mais remoto e compará-lo com a realidade próxima que se quer denunciar. Ao criticar o passado, consegue transpor a mensagem para o presente, obtendo assim um paralelismo fiável.
Os actores não interagem com o auditório. O papel deles é apresentar uma ideia e não criar empatia. Deste modo, atinge-se a lucidez à o público formula juízos de valor.
OBJECTIVO: - Levar a sociedade (público) a tomar consciência da realidade.
PORQUÊ?
- A tomada de consciência leva à acção.
- A acção leva à mudança.
A OBRA:
Tempo da História: século XIX
Tempo da Escrita: século XX
PERSONAGENS:
É possível agrupar algumas personagens segundo as suas posições.
1. Os do Poder:
D. Miguel Forjaz
. Marechal Beresford
. Principal Sousa
2. O Povo:
. Manuel, o mais consciente dos populares
. Rita
. O Antigo Soldado
. Vicente
3. Os Delatores:             
. Morais Sarmento
. Andrade Corvo
. Vicente
As individuais:
. Frei Diogo de Melo, o homem sério da igreja
. António de Sousa Falcão, o amigo
. Matilde de Melo, a companheira de todas as horas
. General Gomes Freire de Andrade
Nota: Vicente é a única personagem que evolui na obra: começa como membro do povo e acaba no grupo dos delatores, elevado a chefe da polícia.
Manuel:
. Representa o povo oprimido e esmagado.
. É lúcido e consciente.
. Usa uma linguagem popular que combina com o realismo da obra.
General Gomes Freire:
. Único
. Com valores, íntegro
. Politicamente liberal, igualitário
Vicente:
. Desrespeita/ Despreza o povo – FALSO HUMANITÁRIO
. É contra o general
. Traidor, calculista
. Ambicioso, materialista
. Subtil, inteligente
. Egoísta
D. Miguel Forjaz:
. Anti-progressista/ retrógrado
. Conservador
. Autoritário
. Medroso
. Sem escrúpulos/ mercenário
. Corrupto – deixa-se corromper e tenta corromper os outros
. Vê o liberalismo como anarquia e caos
. Acha-se superior – absolutista: “Um mundo em que não se distinga a olho nu um nobre de um popular não é mundo em que eu deseje viver”
. Falso demagogo “Deus, Pátria e Família”
Marechal Beresford:
. Mercenário
. Lúcido e consciente
. Mau soldado, mas bom estratega
. Pragmático
. Calculista “não é prudente ainda dizê-lo”
. Ardiloso – trama a confusão mas não a integra
Principal Sousa:
. Corrompido pelo poder
. Deveria semear a paz e semeia o confronto
. Hipócrita
. Contra o liberalismo – odeia os francesas por causa das suas ideias
. Anti-progressista
. Cínico
Frei Diogo:
. O lado bom da igreja
. Homem com compaixão
. Conforta Matilde
. Defende Gomes Freire – corrobora a sua inocência
. Opõe-se ao Principal Sousa
Matilde de Melo:
. É a força do segundo acto
. Está desesperada
. Luta por: lealdade, justiça, verdade
. Digna
. Apaixonada e devota a Gomes Freire
. Por vezes, parece um pouco alucinada
. Culta, vivida
. Forte, lutadora, destemida
. Inteligente
. Grande poder de Argumentação (ver discussão com Principal Sousa)
. Oscila entre dois pólos:
. uma mulher feminina, frágil, consumida pela angústia, a suplicar pelo amor da sua vida, não temendo sequer contrariar princípios.
. uma mulher forte, destemida, que acusa os males do seu povo e denuncia a corrupção e a falta de índole, a tirania.
“Cortam-se as árvores para não fazerem sombra aos arbustos!”
AS DIDASCÁLIAS:
Existem as didascálias normais, que se seguem ao texto, e as didascálias marginais, típicas do teatro de Brecht. Estas corroboram o distanciamento histórico.
Luz/Sombra:
. A falta de luz no cenário (escuridão total) mostra o clima da época – o regime opressor, a ignorância do povo, a obscuridade.
. A intensa luminosidade no Manuel (primeira cena) corrobora a indicação inicial “Manuel, o mais consciente dos populares”. Luz é conhecimento, lucidez.
SÍMBOLOS:
A Moeda:
- a miséria do povo, a esmola
- o compromisso que o povo tem para com o General:
. É como uma medalha de honra para Matilde.
. É símbolo da fé que o povo tem no General.
. Mostra que povo não luta porque não pode.
- a traição da igreja (à semelhança de Judas, a igreja vende-se em nome do dinheiro e do poder)
A Fogueira:
- Por D. Miguel: símbolo de purificação, limpeza
. Quem não está connosco, está contra nós, é preciso afastar.
. Semelhança com a Santa Inquisição
- Por Matilde e Sousa Falcão:
. Profecia de mudança
. Purificação, redenção, chama da esperança
. Renascimento, advento
A Saia Verde:
- Em vida:
. Esperança
. Liberdade - Paris, Revolução Francesa
. Pureza, Inocência - neve branca
- Após a Morte:
. A alegria do reencontro
. A esperança de que a morte do General não seja em vão
. A esperança da mudança
O Preto de Sousa Falcão:
- Luto por si mesmo
- Auto-recriminação por não ter tido a coragem do General
- Se ele partilhava os mesmos ideais que o General, deveria ter dado a cara e lutado com ele
- Arrepende-se da sua cobardia
“Há homens que obrigam todos os outros a reverem-se por dentro”
O Título:
- Por D. Miguel:
. “Felizmente há luar” para se verem melhor as execuções e para que o medo conseguido seja maior a abranja mais pessoas.
. A Lua: monotonia, falta de liberdade de acção e expressão.
. Tal como a lua, os regimes déspotas só sobrevivem se os mais fortes estiverem controlados. Brilham com a luz dos outros.
- Por Matilde:
. O luar permite que mais gente veja a fogueira, mais gente vença o medo, mais gente se revolte e se una para mudar.
. O luar aumenta a amplitude da purificação. Mais irão percorrer em direcção à luz, à liberdade, ao conhecimento, à justiça, à democracia.
Relação entre a carga dramática de Matilde, o tempo da história e o tempo da escrita:
Escrito no século XX, em pleno auge do regime ditatorial de Salazar, e remetido para o século XIX, em pleno regime déspota, Felizmente há luar mostra-nos, claramente a censura e a falta de liberdade de acção, pensamento e expressão que se viveu nestes dois tempos.
Matilde aparece como a força do segundo acto, carregada de emoção, provocando o clímax da história. É ela quem denuncia e quem se revolta contra o movimento castrador que se desenvolvia por todo o país, quem ousa enfrentar o poder absoluto em prol da liberdade, da mudança e da democracia. Usa frases simples, mas fortalecidas com grande energia, coragem e direcção: “Cortam-se as árvores para não fazerem sombra aos arbustos”. Mostra-nos que toda e qualquer ameaça ao poder conservador e unidireccional era, imediatamente, aniquilado.
Matilde oscila entre dois pólos: num é uma mulher frágil e comovida que luta exclusivamente pelo marido inocente, vítima dos interesses mais altos do reino; noutro é a mulher forte e destemida que grita as condições do povo, a podridão das relações da igreja, a falta de índole da nobreza e a ignorância do povo. No entanto, em ambos os casos é uma lutadora, ávida por justiça, que acorda o público/sociedade para a lástima de pessoas que governavam em Portugal. As crises são cíclicas. Foi no século XIX, foi no século XX e foi em muitas outras ocasiões anteriores porque o Homem é assim: não aprende.

Felizmente há luar

O tempo da história

No primeiro quartel do século XIX, alguns movimentos tentaram implantar entre nós o regime liberal tendo como figura central o general Gomes Freire de Andrade, que embora nunca apareça, está sempre presente e condiciona toda a estrutura interna da obra.
Em 1817 – primeiras manifestações dos movimentos liberais com a conspiração abortada de Gomes Freire de Andrade;
Em 1834 – acordo de Évora-monte; implantação definitiva do regime liberal. Esta revolução contra o regime absolutista pretendia acabar com a crise económica em Portugal e com a tirania britânica exercida por Beresford que influenciava a Regência portuguesa.

Objectivos da rebelião:

Implantar um regime liberal, tendo como base uma constituição assente em características populares;
A liberdade de religião, de imprensa e de palavra;
A limitação severa às prerrogativas do rei.

O conselho de Regência via nos movimentos liberais uma ameaça de destruição da estrutura tradicional do reino e a supressão dos privilégios de que as classes mais favorecidas gozavam.
O povo, pelo contrário, via nesses movimentos a única solução para ultrapassar a situação em que vivia, depositando neles todas as esperanças.
Conclusão: apesar de a conspiração ter sido descoberta, e execução dos doze indivíduos, incluindo Gomes Freire de Andrade, contribuiu para uma forte tomeda de consciência liberal. Os opositores ao regime convenceram-se das tiranias dos governantes e da impossibilidade de alterar a situação com meios pacíficos. No final da obra, Matilde representa a necessidade e o desejo de que essa luta continue – “Olhem bem! Felizmente – felizmente há luar!”.

O tempo da escrita

1961 corresponde à época da escrita da obra, época de contestações anível interno. Este clima é fruto de uma situação política, económica e social de desagrado geral. Vivia-se sob o regime ditatorial de Salazar e a desigualdade entre classes era cada vez maior. O povo vivia reprimido e explorado, abundava a mi´seria, o medo e o analfabetismo. Vivia-se no obscurantismo. A censura cortava tudo o que era contra o governo e existiam severas medidas de repressão e de toruta. Sttau Monteiro evoca situações e personagens do passado para falar do presente, para poder crititicar a sociedade do seu tempo.

Estrutura Interna – Acção dramática

Inicialmente é-nos apresentada a situação do país. A história surge no conjunto de situações em que cada uma tem uma lógica intrínseca que se revela completa. Em relação às personagens, estas apresentam a função social que o indivíduo deve exercer dentro do grupo em que vive. Todos os elementos físicos como os cenários, a música, a luz são factores importantes e têm um significado indispensável na construção do sentido, isto porque o que se pretende não é reproduzir uma realidade mas sim levar à reflexão, a uma análise crítica. A unidade da peça não depende da sequência de acções mas da personagem que as origina e que é Gomes Freire de Andrade, que apesar de nunca estar presente, funciona como elemento estruturador das diversas situações que constituem os episódios da obra.
Coclusão: a peça propõe então uma reflexão sobre a dialéctica da revolução e da contra-revolução que deve ser encarada numa perspectiva histórica. O herói é gradualmente mitificado pelo povo que revela uma intenção crítica e atribui ao general o estatuto unificador da história contada pelas outras personagens.

Gomes Freire de Andrade e o tempo da acção

O general é uma figura carismática que aflige os grandes e que arrasta os pequenos. Vai permitir ao autor desmascarar situações e denunciar injustiças. A personagem, provocando uma grande concentração da acção, quase permite falar em unidade de tempo. Não podemos, no entanto, ignorar que várias peripécias se desenvolvam até á detenção de Gomes Freire. É Sousa Falcão que nos informa que depois de encerrado numa masmorra, só ao fim de alguns dias lhe deram de comer, o que nos deixa pressupor que tudo se precipita até ao desenlace.

Didascálias

As didascálias são textos que nos fornecem indicações fundamentalmente sobre o cenário, sobre a movimentação das personagens, o jogo fisionómico, o traje, a luminosidade e o som. Ao mesmop tempo que as palavras proferidas pelas personagens surgem como explicação, denúncia e explicitação da linguagem destas. Muitas vezes, têm as funções da descrição do narrador interventivo, de uma focalização interna e de um convite à reflexão, entre outros.

As personagens

Encontramos ao longo da obra dois tipos de personagens: personagens que representam tipos sociais e personagens que para além das causas sociais se impõem pela sua individualidade.

Gomes Freire d’ Andrade – é uma personagem virtual pois não aparece em cena mas está sempre presente. Para o povo é um herói. É a sua figura que move a acção das personagens. Representa simbolicamente a integridade e a recusa da subserviência. A sua capacidade de liderança e os exemplos de coragem representam o Portugal do passado. Gomes Freire é caracterizado pelas outras personagens. É o símbolo da audácia e da intrepidez do povo a que pertence, ele é o elemento que pela simples razão de existir se torna incómodo – “A sua vida inteira foi uma conspiração permanente contra o que esta gente representa”.
Matilde de Melo – é uma mulher de carácter forte, vibrante nas palavras de paixão, corajosa, recusa a hipocrisia e odeia a injustiça e o materialismo. Não suporta a separação do homem que ama. Matilde é o alter-ego (o outro eu) de Gomes Freire, do qual é impossível dissociar o clamor da revolta. Será ela a tentar provar a inocência do general. Como mulher, simboliza o feminino – “Sou a mulher dele, António...e ele...o meu homem”. Arquétipo da mulher que ama e que sofre por amor. Representa o sofrimento íntimo daqueles que vendo-se afastados do ser que os completa, se sentem despojados da unidade que simbolizam. O ser individual supera o ser social, discurso que funciona como resposta ao discurso oficial e que se apoia em textos bíblicos. Reivindica a sua felicidade e a do homem que ama apresentando um discurso de conotações políticas.


Elementos simbólicos

Saia verde – Matilde ao utilizar a saia verde faz com que o luto dê lugar à esperança. O verde simboliza a renovação da natureza, a longevidade e a imortalidade; eventualmente o reencontro entre Matilde e Gomes Freire numa outra vida.
A noite – sofrimento e morte; símbolo do poder maldito e das injustiças dos governadores; “tempo das germinações e conspirações”.
O luar – prefigura a morte da Terra mas pelas suas diferentes fases associa-se a rituais de renovação e de mudança da natureza.

A ambiguidade do título

Tem um sentido disfórico, conotado com o medo e o fim de uma rebelião quando é proferido por D. Miguel. Tem um sentido contrário quando é dito por Matilde. Representa a esperança numa nova era em que o povo se revoltará contra o poder dos governantes. A repetição do advérbio “felizmente” profetiza o dealdar da rebelião que havia de conduzir ao triunfo do movimento liberal em 1820.