segunda-feira, 23 de maio de 2011

Apontamentos Scribd - História Modulo 9

O fim do mundo soviético
 A Era Gorbatchev– uma nova política
 No início dos anos 80, a União Soviética encontrava-se numa situação preocupante. Foi na conjuntura de crise que surge Mikhail Gorbatchev, eleito secretário-geral do PCUS em 1985. Sem querer por em causa a ideologia e o sistema político vigente, Gorbatchev entendeu, no entanto, ser necessário iniciar:
um processo de reestruturação económica,perestroika (assiste-se a uma descentralização da economia, através da adaptação da economia planificada a uma economia de mercado, onde passa a ser reconhecida a livre iniciativa e a livre concorrência);
 uma política de transparência,glasnot (foi reconhecida a liberdade de expressão, aboliu-se a censura e acabou-se com as perseguições políticas, visando a participação mais activa dos cidadãos na vida política)
Para além da reconversão económica e a abertura democrática, Gorbatchev também pretendia uma aproximação ao mundo ocidental, nomeadamente no sentido do desarmamento, para se chegar a um clima internacional estável.


O colapso do mundo soviético 
Entretanto, as reformas liberais empreendidas por Gorbatchev tiveram grande impacto nos países de Leste europeu. No ano de 1989, uma vaga democratizadora varre o Leste, assistindo-se a uma subversão completa do sistema comunista : Na Polónia, Checoslováquia, Bulgária, Roménia, etc, os partidos comunistas perdem o seu lugar de “partido único” e realizam-se as primeiras eleições livres do pós-guerra. Assim, a “cortina de ferro” que separava a Europa, começa a dissipar-se: as fronteiras com o Ocidente são abertas e, nesse mesmo ano, cai o Muro de Berlim, reunificando a Alemanha (antes dividida em duas pelo muro). Ainda é anunciado, o fim do Pacto de Varsóvia e, pouco depois, a destituição do COMECON.
A Checoslováquia divide-se em duas repúblicas– A República Checa e a Eslováquia.
 Origem de novos estados independentes, através da extinção da Jugoslávia, como a Eslovénia, Bósnia-Herzegovina, Croácia
Nesta altura, a dinâmica política desencadeada pela perestroika tornara-se já incontrolável, conduzindo também, ao fim da própria URSS. Gorbatchev nunca pretendia o fim do comunismo ou do socialismo, tenta parar o processo pela força, fazendo com que o apoio da população se concentre em Boris Ieltsin, que é eleito presidente da República da Rússia, em Junho de ’91 (que toma a medida extrema de proibir as actividades do partido comunista).
No Outono de ’91, a maioria das repúblicas da União declara a sua independência. Em 21 de Dezembro, nasce oficialmente a CEI– Comunidade de Estados Independentes, à qual aderem 12 das 15 repúblicas que integravam a União Soviética. Estava consumado, assim, o fim do bloco soviético e da URSS.
Os problemas da transição para a economia de mercado
A transição para a economia de mercado mostrou-se difícil e teve um impacto muito negativo na vida das populações.
Perante o fim da economia planificada e dos subsídios estatais, muitas empresas faliram, contribuindo para o desemprego; a continuada escassez dos bens de consumo, a par da liberalização dos preços, estimulou uma inflação galopante (subida de preços), que não era acompanhada por uma subida de salários, lançando a população na miséria.
Os países de Leste viveram também, de forma dolorosa, a transição para a economia de mercado. Privados dos importantes subsídios que recebiam da União Soviética, sofreram uma bruscaregressão económica. De acordo com o Banco Mundial “a pobreza espalhou-se e cresceu a um ritmo mais acelerado do que em qualquer lugar do mundo”. A percentagem de pobres elevou-se de 2 para 21% da população total. O caos económico instalou-se e agravaram-se as desigualdades sociais.


Os pólos de desenvolvimento económico
 Profundamente desigualitário, o mundo actual concentra a sua força em 3 pólos de intenso desenvolvimento: os Estados Unidos, a União Europeia e a região da Ásia-Pacífico.
 A hegemonia dos EUA
Com o colapso do bloco soviético, os EUA passaram a reunir todas as condições para se afirmarem como a grande superpotência mundial. A hegemonia que os EUA detêm sobre o resto do mundo alicerça-se numa incontestada capacidade militar, numa próspera situação económica e no dinamismo científico e tecnológico que evidencia. O poder americano afirmou-se apoiado pelo gigantismo económico e pelo investimento maciço no complexo industrial militar. Os EUA têm sido considerados os "polícias do mundo", devido ao papel preponderante e activo que têm desempenhado, afirmando a sua supremacia militar.
A sua hegemonia assenta, igualmente, na prosperidade da sua economia. Os EUA afirmam-se como os maiores exportadores, devido ao dinamismo das suas empresas de bancos, turismo, cinema, música. O sector primário não foi, porém, abandonado. Em resultado da elevada produtividade, os EUA mantêm-se como os maiores exportadores de produtos agrícolas. A sua indústria também revela grande dinamismo, tendo como consequência a liderança dos EUA em sectores de produção de automóveis, têxteis sintéticos, produtos farmacêuticos, etc. Durante a presidência de Bill Clinton, tornou-se prioridade o desenvolvimento do sector comercial, procurando-se estimular as relações económicas com a região do Sudoeste Asiático (criando a APEC - Cooperação Económica Ásia-Pacífico), e estipulou a livre circulação de capitais e mercadorias entre os EUA, Canadá e México (através da NAFTA– Acordo de Comércio Livre da América do Norte). Finalmente, a hegemonia dos EUA resulta também da sua capacidade de inovar, reflexo do progresso científico-tecnológico que evidencia. São os que mais investem na investigação científica, desenvolveram os tecn op ó l os (parques tecnológicos, empresas ligadas à tecnologia). O sector terciário ocupa um enorme peso na economia americana (cerca de 75 %).

A União Europeia 
Desde a sua criação, em 1957, que a União Europeia (naquela altura, CEE) tem vindo a consolidar-se quer pela integração de novos estados-membros, quer pelo aprofundamento do seu projecto económico e político. Assim, integraram-na:
Nos anos 70– Inglaterra, Irlanda e Dinamarca (1973) – Europa dos 9;
Nos anos 80– Grécia (1981), Portugal e Espanha (1986) – Europa dos 12;
Nos anos 90– Áustria, Suécia, Finlândia (1995) – Europa dos 15.
Recentemente entraram os Países Bálticos: Chipre, República Checa, Eslovénia, Eslováquia, Hungria, Polónia, Letónia, Lituânia, Malta (Europa dos 25).
O principal objectivo da CEE era a união aduaneira, concretizada em ’68. No início dos anos 80 vigorava a Europa dos 9, porém, o projecto europeu encontrava-se estagnado.
Decidido a relançar o projecto europeu, Jacques Delors, concentrou-se na renovação da CEE:
Em '86 foi assinado o Acto Único Europeu, que previa o estabelecimento de um mercado único, onde, para além de mercadorias, circulassem livremente pessoas, capitais e serviços.
Em '92 celebrou-se o Tratado da União Europeia (Tratado de Maastri cht) que estabelece uma União europeia (UE), fundada em três pilares: ocomunitário, de cariz económico e, de longe, o mais desenvolvido; o da politica externa e da segurança comum (PESC), e o da cooperação nos domínios da justiça e dos assuntos internos. Foi instituída a cidadania europeia e definiu-se o objectivo da adopção da moeda única. A 1 de Janeiro de 1999, onze países inauguram oficialmente o euro,que completou a integração das economias europeias. O euro entra em vigor em 2002.
Dificuldades da união política 
Têm sido muitos os obstáculos à criação de uma Europa política: os países que não se identificam na totalidade com o projecto europeu, ou os que resistem às medidas que implicam a perda da soberania nacional, a integração de mais países (conjugar interesses de países diferentes), que não tem favorecido o caminho de uma Europa mais unida, a incapacidade da EU de resolver questões como o desemprego, etc.

O Espaço económico da Ásia-Pacífico
 O milagre japonês dos anos 50 e 60 deu início a um processo de desenvolvimento económico que iria, nas décadas seguintes, contagiar outros países asiáticos. Com efeito, o sucesso do Japão serviu de incentivo e de modelo ao desenvolvimento dos “quatro dragões”: Hong Kong; Singapura; Coreia do Sul; Taiwan.
Os quatro dragões compensaram a escassez de recursos naturais com o esforço de umamão-d e- obra barata e abundante, com o apoio do Estado (que investiu altamente no ensino, tendo em vista a qualificação profissional da população, apostou em políticas proteccionistas com vista a atrair os capitais estrangeiros e na exportação de bens de consumo). Em resultado, estes países conseguiram produzir, a preços imbatíveis, produtos de consumo corrente que invadiram os mercados ocidentais, promovendo sectores como o da indústria automóvel, construção naval, etc. Quando a crise afectou a economia mundial na década de 70, o Japão e os “quatro dragões” iniciaram um processo de cooperação económica com os membros da ASEAN(Associação das Nações do Sudoeste Asiático), que agrupava a Tailândia, Indonésia, Filipinas e Malásia. O desenvolvimento destes países resultou das necessidades de matérias-primas, recursos energéticos e bens alimentares, de que eram importantes produtores, por parte do Japão e dos “quatro dragões” que, em troca, expo rtavam bens manufacturados e tecnologia. Este intercâmbio deu origem a uma nova etapa de crescimento, mais integrado, do pólo económico da Ásia Pacífico.
O crescimento teve, no entanto, custos ecológicos e sociais muito altos: a Ásia tornou-se a região mais poluída do Mundo e a sua mão-de-obra permaneceu, maioritariamente, pobre e explorada.
A questão de Timor
 Timor foi dos poucos casos na Ásia onde se instaurou uma democracia através de um processo de autodeterminação. Em 1974, a “Revolução dos Cravos” agitou também Timor Leste, que se preparou para encarar o futuro sem Portugal. Na ilha, onde não tinham ainda surgido movimentos de libertação, nasceram três partidos políticos(A UDT (União Democrática Timorense), que defendia a união com Portugal num quadro de autonomia; A APODETI (Associação Popular Democrática Timorense), favorável à integração do território da Indonésia; E a FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor Leste Independente), com um programa independentista, ligado aos ideais de esquerda.). Esta última, em1975, declara, unilateralmente, a independência do território, mas em Novembro, o governo indonésio ordena a sua invasão por tropas suas. Timor resiste, e a sua resistência continuou activa nos anos 80, encabeçada por Xanana Gusmão (líder da FRETLIN). Em1991, a consciência da comunidade internacional foi despertada, através do visionamento de imagens de um massacre a civis timorenses. No fim da década, a Indonésia aceita finalmente que o povo timorense decida o seu destino através de um referendo, que fica marcado para Agosto de 1999. O referendo, supervisionado por uma missão das Nações Unidas, a UNAMET, deu uma inequívoca vitória à independência, mas desencadeou uma escalada de terror por parte das milícias pro-indonésias. Uma onda de indignação e de solidariedade percorreu então o Mundo e conduziu ao envio de uma força de paz multinacional, patrocinada pelas Nações Unidas. A 20 de Maio de 2002 nasce oficialmente a República Democrática de Timor Leste.
Modernização e abertura da China à economia de mercado 
O arranque da China para o processo de modernização e abertura à economia de mercado teve início nos fins da década de 70, altura em que Deng assumiu o poder. O Líder chinês iniciou um processo de grandes reformas económicas, lançando as bases do desenvolvimento agrícola, industrial e técnico da China. Seguindo uma política pragmática, Deng dividiu a China em 2 áreas geográficas distintas:
 O interior, essencialmente rural, permanecia resguardado da influência externa; e o litoral abrir-se-ia ao capital estrangeiro, integrando-se plenamente no mercado internacional.
O sistema agrário foi reestruturado. Entre 1979 e 1983 as terras foramdescolectivizadas e entregues aos camponeses, estes que podiam, então, comercializar os seus produtos num comércio livre. Assim, a produção agrícola chinesa cresceu 50% em apenas 5 anos. O sector industrial foi altamente modificado em favor da exportação. Em 1980, as cidades de Shenzhen, Zuhai, Shantou e Xiamen, passaram a ser “Zona Económicas Especiais”, eram favoráveis ao negócio pois oinv estimento estatal estava aí concentrado.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Felizmente há luar: Resumo (Simbolos, didascálias)

OS SÍMBOLOS:
Saia verde: A saia encontra-se associada à felicidade e foi comprada numa terra de liberdade: Paris. , no Inverno, com o dinheiro da venda de duas medalhas. "alegria no reencontro"; a saia é uma peça eminentemente feminina e o verde encontra-se destinado à esperança de que um dia se reponha a justiça.  Sinal do amor verdadeiro e transformador, pois Matilde, vencendo aparentemente a dor e revolta iniciais, comunica aos outros esperança através desta simples peça de vestuário. O verde é a cor predominante na natureza e dos campos na Primavera, associando-se à força, à fertilidade e à esperança.
Título: duas vezes mencionado, inserido nas falas das personagens (por D.Miguel, que salienta o efeito dissuador das execuções e por Matilde, cujas palavras remetem para um estímulo para que o povo se revolte).
A luz – como metáfora do conhecimento dos valores do futuro (igualdade, fraternidade e liberdade), que possibilita o progresso do mundo, vencendo a escuridão da noite (opressão, falta de liberdade e de esclarecimento), advém quer da fogueira quer do luar. Ambas são a certeza de que o bem e a justiça triunfarão, não obstante todo o sofrimento inerente a eles. Se a luz se encontra associada à vida, à saúde e à felicidade, a noite e as trevas relacionam-se com o mal, a infelicidade, o castigo, a perdição e a morte. A luz representa a esperança num momento trágico.
Noite: mal, castigo, morte, símbolo do obscurantismo
Lua: simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do Sol e por atravessar fases, mudando de forma, representa: dependência, periodicidade. A luz da lua, devido aos ciclos lunares, também se associa à renovação. A luz do luar é a força extraordinária que permite o conhecimento e a lua poderá simbolizar a passagem da vida para a morte e vice-versa, o que aliás, se relaciona com a crença na vida para além da morte. 
Luar: duas conotações: para os opressores, mais pessoas ficarão avisadas e para os oprimidos, mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade.
Fogueira: D. Miguel Forjaz – ensinamento ao povo; Matilde – a chama mantém-se viva e a liberdade há-de chegar.
O fogo é um elemento destruidor e ao mesmo tempo purificador e regenerador, sendo a purificação pela água complementada pela do fogo. Se no presente a fogueira se relaciona com a tristeza e escuridão, no futuro relacionar-se-á com esperança e liberdade.
Moeda de cinco reis – símbolo do desrespeito que os mais poderosos mantinham para com o próximo, contrariando os mandamentos de Deus.
Tambores – símbolo da repressão sempre presente.







Carácter interpretativo e simbólico
A saia verde
" A felicidade – a prenda comprada em Paris (terra da liberdade), no Inverno, com o dinheiro da venda de duas medalhas;" Ao escolher aquela saia para esperar o companheiro após a morte, destaca a "alegria" do reencontro ("agora que acabaram as batalhas, vem apertar-me contra o peito").
" A saia é uma peça eminentemente feminina e o verde está habitualmente conotado com tranquilidade e esperança, traduzindo uma sensação de repouso, envolvente e refrescante.
O título/a luz/a noite/o luar
O título é duas vezes mencionado ao longo da peça, inserido nas falas das personagens:
D. Miguel salienta o efeito dissuasor que aquelas execuções poderão exercer sobre todos os que discutem as ordens dos governadores: "Lisboa há-de cheirar toda a noite a carne assada. (…) Sempre que pensarem em discutir as nossas ordens, lembrar-se-ão do cheiro…"Logo de seguida afirma: «É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar…» - esta primeira referência ao título da peça, colocada na fala do governador, está relacionada com o desejo expresso de garantir a eficácia desta execução pública: a noite é mais assustadora, as chamas seriam visíveis de vários pontos da cidade e o luar atrairia as pessoas à rua para assistirem ao castigo, que se pretendia exemplar. Na altura da execução, as últimas palavras de Matilde, "companheira de todas as horas" do general Gomes Freire de Andrade, são de coragem e estímulo para que o povo se revolte contra a tirania dos governantes: "-Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! /Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim…/ (Pausa) / Felizmente – felizmente há luar!"Na peça, nestes dois momentos em que se faz referência directa ao título, a expressão "felizmente há luar" pode indiciar duas perspectivas de análise e de posicionamento das personagens:
As forças das trevas, do obscurantismo, do anti-humanismo utilizam, paradoxalmente, o lume (fonte de luz e de calor) para "purificar a sociedade" (a Inquisição considerava a fogueira como fonte e forma de purificação);
Se a luz é redentora, o luar poderá simbolizar a caminhada da sociedade em direcção à redenção, em busca da luz e da liberdade.
Assim, dado que o luar permite que as pessoas possam sair de suas casas (ajudando a vencer o medo e a insegurança na noite da cidade), quanto maior for a assistência isso significará:
- Para os opressores, que mais pessoas ficarão "avisadas" e o efeito dissuasor pretendido será maior;
- Para os oprimidos, que mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela liberdade.

 A fogueira/o lume
Após a prisão do general, num diálogo de "tom profético" e com "voz triste" (segundo a didascália), o Antigo Soldado, afirma: "Prenderam o general…Para nós, a noite ainda ficou mais escura…". A resposta ambígua do 1º Popular pode assumir também um carácter de profecia e de esperança: "É por pouco tempo, amigo. Espera pelo clarão das fogueiras…". Matilde, ao afirmar que aquela fogueira de S. Julião da Barra ainda havia de "incendiar esta terra!", mostra que a chama se mantém viva e que a liberdade há-de chegar.A linguagem em Felizmente Há Luar! é…Natural, viva e maleável, utilizada como marca caracterizadora e individualizadora de algumas personagens;Uso de frases em latim, com conotação irónica, por aparecerem aquando da condenação e da execução;
Frases incompletas por hesitação ou interrupção;
Marcas características do discurso oral;
Recurso frequente à ironia e ao sarcasmo.





A peça é rica em referências concretas (sarcasmo, ironia, escárnio, indiferença, galhofa, adulação, desprezo, irritação – normalmente relacionadas com os opressores; tristeza, esperança, medo, desânimo – relacionadas com as personagens oprimidas).
As marcações são abundantes: tons de voz, movimentos, posições, cenários, gestos, vestuário, sons (o som dos tambores, o silêncio, a voz que fala antes de entrar no palco, um sino que toca a rebate, o murmúrio de vozes, o toque de uma campainha, o murmúrio da multidão) e efeitos de luz (o contraste entre a escuridão e a luz; os dois actos terminam em sombra, de acordo, aliás, com o desenlace trágico).
De realçar que a peça termina ao som de fanfarra ("Ouve-se ao longe uma fanfarronada que vai num crescendo de intensidade até cair o pano.") em oposição à luz ("Desaparece o clarão da fogueira."); no entanto, a escuridão não é total, porque "felizmente há luar".

Felizmente há luar: Resumo (2ª parte)

Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60



Tempo da História
(século XIX – 1817)
- agitação social que levou à revolta
liberal de 1820 – conspirações internas;
revolta contra a presença da Corte no Brasil e influência do exército britânico
- regime absolutista e tirânico
- classes sociais fortemente hierarquizadas
- classes dominantes com medo de perder privilégios
- povo oprimido e resignado
- a “miséria, o medo e a ignorância”
- obscurantismo, mas “felizmente há luar”
- luta contra a opressão do regime absolutista
- Manuel, “o mais consciente dos populares”, denuncia a opressão e a miséria
- perseguições dos agentes de Bereford
- as denúncias de Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmente que, hipócritas e sem escrúpulos, denunciam
- censura
- severa repressão dos conspiradores
- processos sumários e pena de morte
- execução do General Gomes Freire



Tempo da escrita
(século XX – 1961)
- agitação social dos anos 60 – conspirações internas; principal irrupção da guerra colonial
- regime ditatorial de Salazar
- maior desigualdade entre abastados e pobres
- classes exploradas, com reforço do seu poder
- povo reprimido e explorado
- miséria, medo e analfabetismo
- obscurantismo, mas crença nas mudanças
- luta contra o regime totalitário e ditatorial
- agitação social e política com militares antifascistas a protestarem
- Perseguições da PIDE
denúncias dos chamados “bufos”, que surgem na sombra e se disfarçam, para colher informações e denunciar
- censura à imprensa
- prisão e duras medidas de repressão e de tortura
- condenação em processos sem provas



Carácter épico da peça/Distanciação histórica (técnica realista; influência de Brecht)
Felizmente Há Luar! é um drama narrativo, de carácter social, dentro dos princípios do teatro épico. Na linha do teatro de Brecht, exprime a revolta contra o poder e a convicção de que é necessário mostrar o mundo e o homem em constante devir. Defende as capacidades do homem que tem o direito e o dever de transformar o mundo em que vive. Por isso, oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar posição.
O teatro é encarado como uma forma de análise das transformações sociais que ocorrem ao longo dos tempos e, simultaneamente, como um elemento de construção da sociedade. A ruptura com a concepção tradicional da essência do teatro é evidente: o drama já não se destina a criar o terror e a piedade, isto é, já não é a função catártica, purificadora, realizada através das emoções, que está em causa, pela identificação do espectador com o herói da peça, mas a capacidade crítica e analítica de quem observa. Brecht pretendia substituir "sentir" por "pensar".
Observando Felizmente Há Luar! verificamos que são estes também os objectivos de Sttau Monteiro, que evoca situações e personagens do passado (movimento liberal oitocentista em Portugal), usando-as como pretexto para falar do presente (ditadura nos anos 60 do século XX) e assim pôr em evidência a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição.














Felizmente há luar: Resumo

Trata-se de uma drama narrativo de carácter épico que retrata a trágica apoteose do movimento liberal oitocentista, em Portugal. Apresenta as condições da sociedade portuguesa do séc. XIX e a revolta dos mais esclarecidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas. Segue a linha de Brecht e mostra o mundo e o homem em constante transformação; mostra a preocupação com o homem e o seu destino, a luta contra a miséria e a alienação e a denúncia da ausência de moral; alerta para a necessidade de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem.
De acordo com Brecht, Sttau Monteiro proporciona uma análise crítica da sociedade, mostrando a realidade, do modo a levar os espectadores a reagir criticamente e a tomar uma posição.


- personagens psicologicamente densas e vivas
- comentários irónicos e mordazes
- denúncia da hipocrisia da sociedade
- desfesa intransigente da justiça social
- teatro épico: oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar uma posição
- intemporalidade da peça remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição
- preocupação com o homem e o seu destino
- luta contra a miséria e a alienação
- denúncia a ausência de moral
- alerta para a necessidade de uma superação com o surgimento de uma sociedade solidária que permitia a verdadeira realização do homem.
As personagens são psicologicamente densas, os comentários irónicos e mordazes e denuncia-se a hipocrisia da sociedade, a luta contra a miséria e a alienação, a preocupação com o Homem e o seu destino. Drama narrativo, de carácter social, na linha de Brecht (exprime a revolta contra o poder, o homem tem o direito e o dever de transformar a sociedade em que vive, com o objectivo de levar o espectador a reagir criticamente).


BRECHT ("Estudos Sobre o Teatro"): propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador e a história narrada, para que se possam fazer juízos de valor. 
Em "FELIZMENTE HÁ LUAR!", as personagens, o espaço e o tempo são trabalhados para que a "distanciação se concretize".
Luta contra a tirania, opressão, traição, injustiça e todas as formas de perseguição.
O dramaturgo através dos gestos, cenários, palavras e didascálias, leva o público a entender de forma clara a mensagem.
LINGUAGEM: natural, viva e maleável; frases em latim com conotação irónica, frases incompletas por hesitação ou interrupção, marcas características do discurso oral e recurso frequente à ironia e sarcasmo.
Como drama narrativo, pressupõe uma acção apresentada ao espectador e com possibilidade de ser vivida por ele, mas, sobretudo, procura a sua conivência (cumplicidade) ou participação testemunhal.
O carácter narrativo é sinonimo de épico, ao contar determinados acontecimentos que devem ser interpretados, reflectidos e julgados pelo espectador, enquanto elemento da sociedade. Observando Felizmente há Luar, verificamos que são estes os objectivos de Luís de Sttau Monteiro, que evoca situações e personagens do passado, usando-as como pretexto para falar do presente.
o teatro moderno, do qual faz parte esta obra, tem como preocupação fundamental levar os espectadores a pensar, a reflectir sobre acontecimentos passados e a tomar posições na sociedade em que se inserem, para tal é usada uma técnica realista/influencia de Brecht – 

DISTANCIAÇÃO HISTÓRICA – isto é:
- o actor deve conseguir "afastar-se"da personagem
- o espectador deve conseguir "afastar-se" da historia narrada
Esta técnica acaba por aproximar o actor e o espectador, de tal modo que ambos se distanciam da historia narrada, podendo assim como pessoas reais fazerem os respectivos juízos ou criticas de forma precisa e consciente sobre o que se passa em palco.
Assim, Luís de Sttau Monteiro, através desta técnica, pretende levar o espectador a ter um olhar crítico para que se aperceber e criticar as injustiças e opressões.


a) tempo histórico: século XIX
b) tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o regime salazarista
c) tempo da representação: 1h30m/2h
d) tempo da acção dramática: a acção está concentrada em 2 dias
e) tempo da narração: informações respeitantes a eventos não dramatizados, ocorridos no passado, mas importantes para o desenrolar da acção


espaço físico: a acção desenrola-se em diversos locais, exteriores e interiores, mas não há nas indicações cénicas referência a cenários diferentes
espaço social: meio social em que estão inseridas as personagens, havendo vários espaços sociais, distinguindo-se uns dos outros pelo vestuário e pela linguagem das várias personagens


O título da peça aparece duas vezes ao longo da peça, ora inserido nas falas de um dos elementos do poder – D. Miguel – ora inserido na fala final de Matilde. Em primeiro lugar é curioso e simbólico o facto de o título coincidir com as palavras finais da obra, o que desde logo lhe confere circularidade. 
1) página 131 – D. Miguel: salientando o efeito dissuasor das execuções, querendo que o castigo de Gomes Freire se torne num exemplo
2) página 140 – Matilde: na altura da execução são proferidas palavras de coragem e estímulo, para que o povo se revolte contra a tirania
Num primeiro momento, o título representa as trevas e o obscurantismo; num segundo momento, representa a caminhada da sociedade em busca da liberdade.
Como facilmente se constata a mesma frase é proferida por personagens pertencentes a mundos completamente opostos: D. Miguel, símbolo do poder, e Matilde, símbolo da resistência e do antipoder. Porém o sentido veiculado pelas mesmas palavras altera-se em virtude de uma afirmação dar lugar a uma eufórica exclamação
Para D. Miguel, o luar permitiria que as pessoas vissem mais facilmente o clarão da fogueira, isso faria com que elas ficassem atemorizadas e percebessem que aquele é o fim ultimo de quem afronta o regime. A fogueira teria um efeito dissuasor.
Para Matilde, estas palavras são fruto de um sofrimento interiorizado reflectido, são a esperança e o não conformismo nascidos após a revolta, a luz que vence as trevas, a vida que triunfa da morte. A luz do luar (liberdade) vencerá a escuridão da noite (opressão) e todos poderão contemplar, enfim, a injustiça que está a ser praticada e tirar dela ilações.
Há que imperiosamente lutar no presente pelo futuro e dizer não à opressão e falta de liberdade, há que seguir a luz redentora e trilhar um caminho novo.



CONTEXTO HISTÓRICO: Revolução Francesa de 1789 e invasões napoleónicas levam Portugal à indecisão entre os aliados e os franceses. Para evitar a rendição, D. João V foge para o Brasil. Depois da 1ª invasão, a corte pede a Inglaterra, um oficial para reorganizar o exército: GENERAL BERESFORD
Luís de Sttau Monteiro denuncia a opressão vivida na época em que escreve esta obra, isto é, em 1965, durante a ditadura de Salazar. Assim, o recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX, permitiu-lhe, também, colocar em destaque as injustiças do seu tempo.
A peça "Felizmente há luar" é uma peça épica, inspirada na teoria marxista, que apela à reflexão, não só no quadro da representação, como também na sociedade em que se insere. O teatro de Brecht pretende representar o mundo e o homem em constante evolução de acordo com as relações sociais. Estas características afastam-se da concepção do teatro aristotélico que pretendia despertar emoções, levando o espectador a identificar-se com o herói. O teatro moderno tem como preocupação fundamental levar os espectadores a pensar, a reflectir sobre os acontecimentos passados e a tomar posição na sociedade em que se insere. Surge assim a técnica do distanciamento que propõe um afastamento entre o actor e a personagem e entre o espectador e a história narrada, para que, de uma forma mais real e autêntica possam fazer juízos de valor sobre o que está a ser representado. Luís Sttau Monteiro pretende, através da distanciação, envolver o espectador no julgamento da sociedade, tomando contacto com o sofrimento dos outros. Deste modo o espectador deve possuir um olhar crítico para melhor se aperceber de todas as formas de injustiça e opressões.


GOMES FREIRE: protagonista, embora nunca apareça é evocado através da esperança do povo, das perseguições dos governadores e da revolta da sua mulher e amigos. É acusado de ser o grão-mestre da maçonaria, estrangeirado, soldado brilhante, idolatrado pelo povo. Acredita na justiça e luta pela liberdade. É apresentado como o defensor do povo oprimido; o herói (no entanto, ele acaba como o anti-herói, o herói falhado); símbolo de esperança de liberdade
D. MIGUEL FORJAZ: primo de Gomes Freire, assustado com as transformações que não deseja, corrompido pelo poder, vingativo, frio e calculista. prepotente; autoritário; servil (porque se rebaixa aos outros); 
PRINCIPAL SOUSA: defende o obscurantismo, é deformado pelo fanatismo religioso; desonesto, corrompido pelo poder eclesiástico, odeia os franceses
BERESFORD: cinismo em relação aos portugueses, a Portugal e à sua situação; oportunista; autoritário; mas é bom militar; preocupa-se somente com a sua carreira e com dinheiro; ainda consegue ser minimamente franco e honesto, pois tem a coragem de dizer o que realmente quer, ao contrário dos dois governadores portugueses. É poderoso, interesseiro, calculista, trocista, sarcástico
VICENTE: sarcástico, demagogo, falso humanista, movido pelo interesse da recompensa material, hipócrita, despreza a sua origem e o seu passado; traidor; desleal; acaba por ser um delator que age dessa maneira porque está revoltado com a sua condição social (só desse modo pode ascender socialmente).
MANUEL: denuncia a opressão a que o povo está sujeito. É o mais consciente dos populares; é corajoso. 
MATILDE DE MELO: corajosa, exprime romanticamente o seu amor, reage violentamente perante o ódio e as injustiças, sincera, ora desanima, ora se enfurece, ora se revolta, mas luta sempre. Representa uma denúncia da hipocrisia do mundo e dos interesses que se instalam em volta do poder (faceta/discurso social); por outro lado, apresenta-se como mulher dedicada de Gomes Freire, que, numa situação crítica como esta, tem discursos tanto marcados pelo amor, como pelo ódio.
SOUSA FALCÃO: inseparável amigo, sofre junto de Matilde, assume as mesmas ideias que Gomes Freire, mas não teve a coragem do general. Representa a amizade e a fidelidade; é o único amigo de Gomes Freire de Andrade que aparece na peça; ele representa os poucos amigos que são capazes de lutar por uma causa e por um amigo nos momentos difíceis.
Frei Diogo: homem sério; representante do clero; honesto – é o contraposto do Principal Sousa. 
Delatores: mesquinhos; oportunistas; hipócritas.

MIGUEL FORJAZ, BERESFORD e PRINCIPAL SOUSA  perseguem, prendem e mandam executar o General e restantes conspiradores na fogueira. Para eles, a execução à noite, constituía uma forma de avisar e dissuadir os outros revoltosos, mas para MATILDE era uma luz a seguir na luta pela liberdade.


Linguagem
- natural, viva e maleável, utilizada como marca caracterizadora e individualizadora de algumas das personagens
- uso de frases em latim com conotação irónica, por aparecerem no momento da condenação e da execução
- frases incompletas por hesitação ou interrupção
- marcas características do discurso oral
- recurso frequente à ironia e sarcasmo

Recursos estilísticos: enorme variedade (tomar especial atenção à ironia)
Funções da linguagem: apelativa (frase imperativa); informativa (frase declarativa); emotiva [frase exclamativa, reticências, anacoluto (frases interrompidas)]; metalinguística
Marcas da linguagem e estilo: provérbios, expressões populares, frases sentenciosas

TEXTO PRINCIPAL: As falas das personagens
TEXTO SECUNDÁRIO: as didascálias/indicações cénicas (têm um papel crucial na peça)



Paralelismo passado/condições históricas dos anos 60: denúncia da violência
Felizmente Há Luar! tem como cenário o ambiente político dos inícios do século XIX: em 1817, uma conspiração, encabeçada por Gomes Freire de Andrade, que pretendia o regresso do Brasil do rei D. João VI e que se manifestava contrária à presença inglesa, foi descoberta e reprimida com muita severidade: os conspiradores, acusados de traição à pátria, foram queimados publicamente e Lisboa foi convidada a assistir.
Luís de Sttau Monteiro marca uma posição, pelo conteúdo fortemente ideológico, e denuncia a opressão vivida na época em que escreve a obra, em 1961, precisamente sob a ditadura de Salazar.
O recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no século XIX em que decorre a acção permitiu-lhe, assim, colocar também em destaque as injustiças do seu tempo e a necessidade de lutar pela liberdade.
Em Felizmente Há Luar! percebe-se, facilmente, que a História serve de pretexto para uma reflexão sobre os anos 60, do século XX. Sttau Monteiro, também ele perseguido pela PIDE, denuncia assim a situação portuguesa, durante o regime de Salazar, interpretando as condições históricas que mais tarde contribuíram para a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974. Tal como a conspiração de 1817, em vez de desaparecer com medo dos opressores permitiu o triunfo do liberalismo, também a oposição ao regime vigente nos anos 60, em vez de ceder perante a ameaça e a mordaça, resistiu e levou à implantação da democracia.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Memorial - 8 a 25 - resumo.

Capítulo XIII

Os arames e os ferros enferrujaram-se e os panos da passarola cobrem-se de mofo; o vime, ressequido, destrança-se. Baltasar experimenta os ferros, tudo perdido, é melhor começar outra vez. Enquanto o padre não chega, constrói-se a forja, vão a um ferreiro e vêem como se faz o fole.
Quando Bartolomeu de Gusmão chegou e viu o fole pronto, peça por peça desenhada e feita por Sete-Sóis, ficou contente e disse; "Um dia voarão os filhos do homem." Encomendou a Blimunda duas mil vontades dos homens e mulheres que morreriam a fim de que, junto com âmbar e imãs, pudessem fazer subir a nau que construíam. O padre distribui tarefas, indica a Sete-Sóis onde comprar ferro, vime e peles para os foles, pede segredo absoluto de tudo o que estão a fazer. Trabalham na passarola quase um ano inteiro, procissões passam em delírio pelas ruas, povo misturado ao clero, clero misturado aos nobres.

Capítulo XIV

O padre Bartolomeu Lourenço voltou a Coimbra já doutor em cânones, e agora pode ser visto na casa de uma viúva.
D. João manda vir da Itália o maestro barroco Domenico Scarlatti, a fim de dar lições de música à sua filha, a infanta D. Maria Bárbara. Scarlatti e Bartolomeu tornam-se amigos, partilhando as mesmas ideias e sonhos. Confiante em Scarlatti, o padre leva-o a S. Sebastião da Pedreira e apresenta os amigos e a passarola a Scarlatti. Blimunda chega da horta trazendo "brincos de cereja", a fim de brincar com Baltasar. Quando os viu, o músico pensou: Vénus e Vulcano... O padre diz a Scarlatti que ele e Baltasar têm ambos 35 anos e que não poderiam ser pai e filho. Mas poderiam ser irmãos, portanto, desde o começo da história, o tempo que se passou pode ser contado, nove anos. Mostrada a passarola por dentro, retira-se Scarlatti, mas promete voltar e trazer o cravo, que tocará enquanto Blimunda e Baltasar trabalham. O padre lá permaneceu, onde treinou o seu sermão para que os dois ouvissem. Discutem sobre Deus uno, trino. Blimunda adormeceu com a cabeça apoiada no ombro de Baltasar. Um pouco mais tarde ele levou-a para dormir. O padre saiu para o pátio, e toda a noite ali permaneceu, tomado por tentações.

Capítulo XV

Scarlatti voltou muitas vezes à quinta e pedia que não parassem o trabalho; ali, em meio aos ruídos e grandes barulhos, confusão, tocava o cravo.
Há um surto de varíola em Lisboa, oriundo de uma nau vinda do Brasil. O padre pede à Blimunda que vá à cidade e recolha as vontades das pessoas. É assim que ela, em jejum, durante um dia inteiro se põe a recolher tais vontades. Um mês depois, são mais de mil vontades presas ao frasco em que Blimunda as recolhia. E quando a epidemia terminou, ela tinha aprisionado duas mil vontades. Foi então que caiu doente. Nada a curava da extrema magreza; mas um dia, Scarlatti pôs-se a tocar e ela abriu os olhos e chorou. O maestro veio, então, todos os dias, quer fizesse chuva ou sol; e a saúde de Blimunda voltou depressa.
Um dia, Baltasar e Blimunda vão a Lisboa e encontram Bartolomeu doente, magro e pálido. Parecia ter medo de algo.

Capítulo XVI

Neste capítulo, comenta-se fortemente a governação do reino, criticando a maneira de se fazer justiça, onde o poder e a riqueza se sobrepõem sempre àqueles que nada têm nem podem... Até mesmo o destino, se calhar, foi injusto ao deixar morrer afogado o Infante D. Miguel, poupando a vida ao seu irmão o Infante D. Francisco.
Entretanto, criada pelo Padre Bartolomeu Lourenço, a passarola, a máquina de voar, está pronta. Em S. Sebastião da Pedreira, Baltasar e Blimunda, têm de deixar a quinta que foi perdida por El-rei para o Duque de Aveiro. O Padre Bartolomeu Lourenço, aguarda a vinda de El-rei para provar a máquina e quer dividir a glória e a fama do seu invento com Blimunda e Baltasar. Porém o Padre anda agitado e receoso de que o acusem de feiticeiro e judeu, embora conte com o apoio de El-rei.
O tempo passa, El-rei não chega; já é Outono e a máquina necessita de sol para se erguer do chão! Certo dia, eis que o Padre Bartolomeu Lourenço chega pálido e assustado dizendo que tinha de fugir, pois o Santo Ofício já andava à sua procura para o prender! Apontou a passarola e disse que iriam fugir nela! Depois de preparada pedem ajuda ao Anjo Custódio para aquela "viagem"... e partiram pelos ares sacudidos pelos ventos até onde o destino os quis levar. Passam por momentos de medo, euforia, deslumbramento e felicidade, considerando-se loucos. Lá do alto avistam Lisboa, o Terreiro do Paço, as ruas, etc... Nesta altura procuram o padre para o prender e percebem que este fugiu. A noite chega, sem sol a máquina começa a perder altitude... Estão assustados. O Padre Bartolomeu Lourenço, resignado, espera o fim mas Blimunda como que inspirada, consegue controlar a máquina com a ajuda de Baltasar e evitam o pior. Uma vez em terra firme, deixam-se escorregar para fora e consideram um milagre terem-se salvo sem qualquer ferimento.
Não sabem onde estão. O Padre acha que vão encontrá-los e que morrerão. Blimunda e Baltasar, confiantes, acreditam que se se salvaram daquele perigo, salvar-se-ão dos próximos, e estão prontos para fazer a máquina voar no dia seguinte. Cansados e depois de comerem algo, adormecem, Blimunda e Baltasar. O Padre está doente, tenta pegar lume na passarola mas os dois não o permitem. Afasta-se para umas moitas e nunca mais é visto. Baltasar vai procurá-lo, mas em vão. Cobriram a máquina de ramos e folhas para impedi-la de voar. Na manhã seguinte, desceram pelo mesmo sítio onde o Padre desaparecera sem deixar rasto, mas nem sombra dele. E lá partiram os dois. Ao fim de dois dias chegam a Mafra, onde havia uma Procissão na rua que dava graças a Deus por haver mandado voar sobre as obras da Basílica o seu Espírito Santo!...

Capítulo XVII

Numa altura em que se passam tantos prodígios, Blimunda e Sete-Sóis têm que guardar segredo porque se assim não fosse algo lhes aconteceria. Na casa dos pais de Baltasar, o par estava infeliz pela perda da mãe, mas Inês Antónia contou-lhes maravilhada os benefícios do Espírito Santo. No dia seguinte Baltasar saiu de casa com o cunhado à procura de emprego na obra de construção do convento.
A Mafra chegaram notícias que tinha ocorrido um pequeno terramoto em Lisboa derrubando beirais e chaminés. Passados mais de dois meses, Baltasar e Blimunda foram viver para Mafra. Baltasar fez uma jornada e foi ver que a máquina de voar estava no mesmo sítio, na mesma posição, descaída para um lado e apoiada na asa debaixo de uma cobertura de ramagens já secas. Dois meses mais tarde, Blimunda vem esperá-lo ao caminho e conta-lhe que Scarlatti está na casa do Visconde. Scarlatti tinha feito um pedido ao rei para poder visitar as obras do convento e o Visconde hospedara-o, apesar de não gostar de música.
Scarlatti disse a Baltasar que o padre Bartolomeu teria morrido em Toledo para onde tinha fugido e como não falavam de Baltasar nem Blimunda resolveu vir a Mafra verificar se estavam vivos. Nessa noite soube-se que quando a máquina caiu o padre havia fugido e nunca mais voltara. No dia seguinte Scarlatti partiu para Lisboa.

Capítulo XVIII

D. João V estava sentado numa cadeira escrevendo os seus bens e riquezas no rol. El-rei meditou acerca do que iria fazer às tão grandes somas de dinheiro, chegando à conclusão que a alma seria a primeira atenção, mandando construir o convento de Mafra, pagando com o ouro das suas minas e fazendas. Todos os materiais utilizados no convento eram de qualidade. De Portugal a pedra, o tijolo e a lenha para queimar, o arquitecto alemão, italianos mestres dos carpinteiros e da Holanda os sinos e os carrilhões. O convento levou 8 anos a ser construído.
Blimunda, Inês Antónia, Álvaro Diogo e o filho esperavam Baltasar, para jantarem com o velho João Francisco que mal mexe as suas pernas. Acabado o jantar Álvaro Diogo dorme a sesta. Baltasar bebe desde que soube da morte do padre Bartolomeu Lourenço e da sua passarola, foi um choque muito grande. Baltasar e seus amigos conversam acerca das suas vidas e falam de como eram as suas vidas antes de trabalharem em Mafra. Baltasar tem 40 anos, sua mãe já morreu e seu pai mal pode andar. Esteve na guerra e aí perdeu a sua mão, voltando a Mafra mais tarde. Sete Sois comenta que nem sabe se perdeu a sua mão na guerra ou se foi o Sol que a queimou, porque afirma que subiu uma serra tão alta que quando estendeu a mão tocou no Sol e queimou-o. Seus colegas comentaram que era impossível visto que só tocaria no Sol 'Se voasse como os pássaros, ou então seria bruxo. Baltasar nega dizendo que não é bruxo e também diz que ninguém o ouviu dizer que voou.

Capítulo IXX

Durante muito tempo Baltasar puxou e empurrou carros de mão e um dia, com a ajuda de João Pequeno, puxou uma junta de bois, fazendo companhia ao seu amigo corcunda.
Houve notícia que era preciso ir a Pêro Pinheiro buscar uma pedra muito grande que lá estava. Construíram lá um carro para carregar a pedra, como se fosse uma nau da Índia com calhas. Foram para lá 400 bois e mais de vinte carros. Ao amanhecer os homens partiram para cumprir 3 léguas até onde estava a pedra. Diziam que nunca tinham visto uma coisa como aquelas. Escavaram junto à pedra de forma a levá-la inteira para Mafra. A pedra vinha puxada a braços e Baltasar viu, num átimo de segundo, sangue e viu que um dos homens se ferira. No primeiro dia não andaram mais de 500 passos. No segundo dia foi pior porque o caminho era a descer e foi preciso meter calços nos carros. Um homem chamado Francisco Marques morreu atropelado por um carro, a roda passou-lhe sobre o ventre, quando chegou ao fundo do vale, o carro que transportava a pedra desandou atingindo 2 animais, a seguir tiveram que os matar. Gastaram 8 dias entre Pêro Pinheiro e Mafra, quando chegaram parecia que tinham vindo da guerra, vinham sujos e esfarrapados. Todos se admiraram com o tamanho da pedra.

Capítulo XX

Era a sexta ou sétima vez que Baltasar se deslocava a Monte Junto para consertar a máquina que se ia destruindo com o tempo. Mesmo protegida por mato e silvado, as lâminas da máquina voadora ficavam enferrujadas. Baltasar aproveitava a viagem para colher vimes, que serviam para consertar os rasgões que encontrava no entrançado da máquina.
Chegou o dia em que Blimunda decidiu acompanhar Baltasar na viagem. Justificando-se que gostaria de conhecer o percurso para o caso de necessitar deslocar-se até ao local sozinha poder fazê-lo sem problemas. Puseram-se a caminho depois das despedidas, com o burro que Baltasar arranjara para os ajudar na longa viagem que tinham pela frente. Foram passando pelas vilas que Blimunda ia decorando, até chegarem ao destino.
Durante o dia tentaram consertar a máquina até ao pôr-do-sol. Passaram a noite na passarola e voltaram no dia seguinte a Mafra.
Mesmo depois da longa viagem ainda não tinham passado pelo pior, pois foi à hora do jantar, quando todos se juntaram, que morreu o pai de Baltasar, João Francisco.

Capítulo XXI

D. João V queria construir uma basílica de S. Pedro em Lisboa, mas o arquitecto de Mafra, que foi chamado pelo rei, João Frederico Ludwig, aconselhou-o a não construir a basílica, porque demorava muito tempo a construir e D. João V poderia já não estar vivo quando acontecesse a inauguração desta. Então o rei decidiu aumentar o convento de Mafra de oitenta para trezentos frades, e assim foi, foram chamados o tesoureiro, o mestre dos carpinteiros, o mestre dos alvenéus, o abegão-mor e o engenheiro das minas. Então começaram as obras, mas depois o rei decidiu que a inauguração do novo convento seria no dia dos seus anos, que calhava num domingo, daí a dois anos; após essa data, o seu próximo dia de anos, que calhasse num domingo só seria daí dez anos e poderia ser muito tarde. Como dois anos seria pouco tempo para a construção do novo convento, D. João V mandou os seus homens irem buscar outros homens a todas as partes do país; estes eram recrutados contra a sua vontade, como escravos, indo assim trabalhar para as obras do convento, para este estar pronto a tempo. Alguns destes homens chegaram até a morrer com fome e perdidos a tentar voltar para casa.

Capítulo XXII

Este capítulo versa essencialmente sobre as famílias reais portuguesa e espanhola. Desde muito cedo foram organizados casamentos entre as duas como os que agora se vão realizar, o de Maria Vitória, espanhola, que casou com o português José e o de Maria Bárbara, portuguesa, com o espanhol Fernando.
Maria Bárbara tem 17 anos, não é formosa nem bonita mas é boa rapariga. No decorrer do capítulo apercebemo-nos que iremos assistir ao percurso de Maria Bárbara e da família real até Espanha, onde ela e vai casar. Durante a viagem, a comitiva real passa por várias cidades portuguesas e depara-se com alguns problemas, principalmente os meteorológicos, visto a chuva tornar os caminhos muito complicados para passar.
Também podemos referir a construção de várias propriedades reais para que se pudessem acolher durante a viagem.
É de salientar que Maria Bárbara vai para Espanha sem nunca ter visitado o convento de Mafra que estava a ser construído em sua honra (por causa do seu nascimento).

Capítulo XXIII

De Portugal todo chegam homens e são escolhidos um por um. A infanta Maria Bárbara casa-se com Fernando de Espanha. Esta é a marca do tempo narrativo de Saramago, ou seja os factos históricos. O noivo é dois anos mais novo que a noiva, e ele nunca poderá vir a ser rei, porque este é o sexto na linha sucessória. Domenico Scarlatti toca no seu cravo para a multidão de ignorantes, por ocasião do casamento da Infanta Dona Maria Bárbara, na fronteira com a Espanha.
Aqui, neste capítulo, o narrador menciona a procissão que levará os santos para serem colocados nos altares do convento de Mafra: S. Francisco, Santa Teresa, Santa Clara, S. Vicente, S. Sebastião e Santa Isabel. Seguem também para Mafra frei Manuel da Cruz e os seus noviços; trinta, e ali, quando chegam cansados, são recebidos em triunfo.
Baltasar vai para casa, o narrador anuncia-nos que ele está muito debilitado. Depois já ceia, quando todos dormem, Baltasar pega em Blimunda e leva-a a ver as estátuas, juntos, vêem a lua nascer enorme e vermelha. Ele anuncia-lhe que vai ao Monte Junto na manhã seguinte, ver como está a passarola. Ela pede-lhe para ter cuidado e ele responde que ela fique sossegada, que o seu dia ainda não chegou. Olham os santos inertes, o que seria aquilo? Morte, santidade ou condenação? Quando amanheceu, Blimunda levantou-se e juntou comida para o farnel do marido que ia ao Monte e acompanhou-o até fora da vila: "Adeus Blimunda, Adeus Baltasar", e separaram-se. Ao chegar ao lugar onde estava a passarola, Baltasar come as sardinhas que Blimunda lhe tinha colocado no alforge: havia tanto trabalho a fazer...

Capítulo XXIV

Baltazar não voltou para casa, o que fez Blimunda não dormir aquela noite. Esperara que ele voltasse ao cair do dia, haveria os festejos da sagração da basílica, mas ele não voltara. Em jejum, olhando as pessoas que passavam para a festa, estava sentada numa vala e ali ficou, vendo o que os que passavam carregavam por dentro; recebendo insultos, dizendo outros. Voltou para casa, ceou com os cunhados e o sobrinho. Não conseguiu dormir.
Não verá o rei quando ele vier a Mafra, vai esperar Baltazar pelos caminhos, desesperadamente tentando encontrá-lo, chegou até ao Monte Junto e encontra o alforge mas nem sinal de Baltasar nem da passarola, chora sem saber se ele morreu ou vive. Encontra um frade que tenta violá-la e mata-o com o espigão de Baltazar. Parte em busca do seu amado. Voltou a Mafra pensando que se tinham desencontrado, mas ele não estava lá.
À tardinha, chegaram Inês António e Álvaro Diogo e encontraram-na a dormir. De manhã, ela esquece-se de comer o pão e vê-os por dentro.
D. João V faz quarenta e um anos e é 22 de Outubro de 1730. Inaugura-se o convento.

Capítulo XXV

Durante nove anos, Blimunda andou pelos caminhos sempre à procura de Baltazar que sabia estar. Perguntou por ele em todo o lado.
Julgavam-na doida, mas ouvindo-lhe as demais sensatas palavras e acções, ficavam indecisos se aquilo que dizia era ou não falta de juízo completo. Passou a ser chamada de A Voadora, e sentava-se, então, às portas, ouvindo as queixas das mulheres que lamentavam, depois, que os seus homens não tivessem também desaparecido, para que elas pudessem, ao menos, devotar-lhes um amor tão grande como o de Blimunda a Baltazar. E os homens, quando ela partia, ficavam tristes inexplicavelmente tristes.
Voltava aos lugares por onde passara, sempre perguntando. Seis vezes passara por Lisboa, esta, a que vinha agora, era a sétima. Sem comer, o tempo era chegado para ela. No Rossio, finalmente encontrou Baltazar. Havia lá um auto-de-fé. Eram onze os condenados à fogueira; entre eles, estava António José da Silva, o Judeu, comediógrafo autor das Guerras de Alecrim e Manjerona e Baltasar, ela olhou-o, recolheu a sua vontade, porque ele lhe pertencia.